Em 2021 e 2022, o governo dos Estados Unidos manteve uma campanha coordenada de pressão sobre o Brasil durante o processo eleitoral. Não é tese de blog: é o que revelou o Financial Times, em reportagem de 21 de junho de 2023 assinada por Michael Stott, Michael Pooler e Bryan Harris, com base em seis autoridades americanas envolvidas no esforço.
Os fatos apurados pelo FT:
- O chefe da CIA, William Burns, veio ao Brasil e disse ao governo Bolsonaro, em reunião a portas fechadas, que o presidente não deveria questionar as eleições. A Reuters havia antecipado o episódio em maio de 2022, referindo-se a um encontro em julho de 2021.
- A general Laura Richardson, chefe do Comando Sul dos EUA, visitou o Brasil em novembro de 2021 e setembro de 2022, levando a mesma mensagem aos militares.
- O Departamento de Estado emitiu endosso público ao sistema eleitoral brasileiro — um alto funcionário brasileiro ouvido pelo FT classificou a declaração como “antídoto contra uma intervenção militar”.
- O objetivo, segundo o próprio jornal, era reforçar duas mensagens aos generais e aos aliados de Bolsonaro: Washington era “neutra” quanto ao resultado, mas não toleraria questionamento do processo eleitoral nem do resultado.
Uma campanha estrangeira coordenada, envolvendo inteligência, diplomacia e militares de uma potência estrangeira, atuando sobre as Forças Armadas brasileiras em ano eleitoral. Naquele momento, a palavra “interferência” não foi usada pela esquerda brasileira nem pela grande imprensa. O enquadramento dominante foi outro: “campanha para defender a eleição”, “governo Biden impediu um golpe”. O episódio foi celebrado como legítimo — até como mérito diplomático americano.
Quatro anos depois, o vocabulário mudou. Na sexta-feira (2.out.2026), o embaixador Rubens Barbosa, que representou o Brasil em Washington e Londres, declarou à CNN Brasil: “Eu sempre achei que os Estados Unidos, direta ou indiretamente, iriam interferir nas eleições aqui no Brasil. É o que está acontecendo.” Ele citou o repasse de US$ 1 milhão do governo Trump a um programa de combate ao que os EUA chamam de “lawfare e censura” no Brasil, e a suspensão de serviços pela Embaixada dos EUA após alerta de segurança — seguida por Canadá, Austrália e recomendações do Reino Unido, num país em “clima de tranquilidade”, nas palavras do próprio embaixador.
E aí está a pergunta que este artigo se propõe a fazer:
Por que, em 2022, a atuação de CIA, Departamento de Estado e Pentágono sobre as Forças Armadas brasileiras foi tratada como “defesa da democracia” — e, em 2026, um alerta de embaixada e um repasse de US$ 1 milhão são tratados como “interferência estrangeira na soberania nacional”?
Há duas leituras possíveis, e o leitor merece conhecer as duas.
A primeira é a tese da assimetria: o critério não é o ato, mas quem o pratica e contra quem. Quando a intervenção estrangeira favorecia o resultado que a esquerda e parte da imprensa desejavam, foi batizada de proteção institucional. Quando favorece o campo oposto, virou ameaça à soberania. Se isso é verdade, o discurso de “defesa da democracia” nunca foi princípio — foi instrumento.
A segunda leitura, que os defensores do enquadramento de 2022 apresentam, sustenta que a natureza dos atos é diferente: em 2021-22, segundo o FT, a mensagem era de neutralidade sobre o resultado e de pressão para que o vencedor fosse respeitado; em 2026, haveria financiamento de campanha de opinião e alertas que, segundo críticos, semeiam desconfiança véspera de eleição. É a distinção entre “pressão para respeitar o pleito” e “pressão sobre o pleito”.
Mas a própria reportagem do FT registra que a campanha de 2022 não foi neutra em relação ao processo: ela buscava ativamente impedir que um campo político específico questionasse o resultado — usando a alavanca do treinamento e do equipamento militar que os generais brasileiros recebem de Washington. Quem define o que é “defender” e o que é “interferir” é, em grande medida, quem narra o episódio.
O que os dois momentos provam, de fato, é uma coisa só: os Estados Unidos interferem em eleições brasileiras — a questão é quando cada lado decide enxergar. Em 2022, quem apontou a atuação americana foi tratado como conspiracionista. Em 2026, quem aponta é manchete.
A soberania nacional não deveria ter partido. A pergunta que fica, a um dia do primeiro turno: o Brasil aceita que a palavra “interferência” só exista quando é conveniente a alguém?

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