Se a democracia fosse um banco, ela estaria enfrentando uma corrida aos saques hoje.
A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta manhã pela coluna de Lauro Jardim (O Globo), realizada entre 5 e 9 de fevereiro, traz um dado que nenhum ministro, político ou cidadão pode ignorar: 43% dos brasileiros não confiam nas urnas eletrônicas e no processo eleitoral.
Não estamos falando de uma minoria radical. Estamos falando de quase metade da população economicamente ativa e votante do país.
A Fratura Exposta da Legitimidade
No jornalismo e no direito, aprendemos que a legitimidade do poder não vem apenas da legalidade do processo, mas da aceitação social do resultado. Quando quatro em cada dez brasileiros entram na cabine de votação suspeitando que seu voto pode não ir para quem eles escolheram, o pacto social está quebrado.
Ignorar esse dado, ou pior, tratar essa desconfiança como “crime” ou “desinformação”, é o caminho mais rápido para o colapso institucional. A dúvida não se combate com martelo; combate-se com luz.
O Dever Constitucional da Transparência (Não é um Favor)
A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 37, impõe à Administração Pública — o que inclui o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — o Princípio da Publicidade.
Publicidade não é apenas publicar editais no Diário Oficial. É tornar o processo compreensível, auditável e transparente para o homem comum, não apenas para especialistas em TI.
À luz da atual crise de confiança, a postura defensiva do TSE tem se mostrado contraproducente. A resposta para “eu não confio” não pode ser “cale-se”, mas sim “venha ver como funciona”.
O Que o TSE Precisa Fazer Agora (O Caminho da Lei)
Para sanar essa hemorragia de credibilidade, o TSE deve adotar medidas urgentes, amparadas na própria legislação eleitoral e no dever de garantir a “autenticidade do sistema eleitoral” (Código Eleitoral):
- Transparência Radical e Auditabilidade: A confiança só retornará com a materialidade. O TSE deve ampliar, e não restringir, os mecanismos de auditoria externa independente. Não apenas por partidos políticos, mas por entidades da sociedade civil, sem amarras ou “acordos de confidencialidade” que geram mais suspeitas.
- Fim do “Segredo de Justiça” Técnico: A abertura total do código-fonte e dos logs das urnas para a comunidade acadêmica e técnica internacional, sem as restrições de tempo e ambiente controlado que hoje existem, é vital. Quem não deve, não teme a lupa.
- Campanha de Educação, não de Intimidação: Em vez de gastar milhões em campanhas publicitárias que dizem “a urna é segura e ponto final”, o Tribunal deve investir em demonstração. A dúvida do eleitor é legítima. O papel do Estado é esclarecer, com paciência pedagógica, e não punir a dúvida.
- Respeito ao Artigo 5º (Liberdade de Expressão): Criticar o sistema, apontar falhas ou exigir melhorias é um direito fundamental. A criminalização da crítica ao sistema eleitoral apenas alimenta a narrativa de que “há algo a esconder”.
Conclusão: O Risco do Silêncio
O dado da Genial/Quaest é um sintoma, não a doença. A doença é o distanciamento entre as instituições e o povo.
Se o TSE continuar a tratar 43% da população como “inimigos do sistema” em vez de cidadãos preocupados, a eleição de 2026 corre o risco de ter um vencedor legal, mas uma vitória moralmente contestada. E uma democracia sem confiança é apenas uma burocracia cara.
A bola está com a Justiça Eleitoral. A pergunta é: eles vão jogar para a torcida (o povo) ou vão continuar jogando apenas para si mesmos?
